Vida(s)em ViAGeM

\”Andamos com a corda e a faca na garganta e continuamos a sorrir como se nada fosse. O riso sai aos solavancos num choro contido mas rimo-nos e é o que importa. É uma forma de ficar em silêncio.\”, por José Félix

As flores de plástico não morrem…!! Janeiro 10, 2007

Filed under: Elisabete — elisabetecunha @ 4:51 am

http://www.oasinweb.com/primavera/pratoline2.JPG

Campo de flores  
  Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus-ou foi talvez o Diabo-deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.
Mas sou cada vez mais, eu que não me sabia
e cansado de mim julgava que era o mundo
um vácuo atormentado, um sistema de erros.
Amanhecem de novo as antigas manhãs
que não vivi jamais, pois jamais me sorriram.
Mas me sorriam sempre atrás de tua sombra
imensa e contraída como letra no muro
e só hoje presente.
Deus me deu um amor porque o mereci.
De tantos que já tive ou tiveram em mim,
o sumo se espremeu para fazer vinho
ou foi sangue, talvez, que se armou em coágulo.
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.

Hoje tenho um amor e me faço espaçoso
para arrecadar as alfaias de muitos
amantes desgovernados, no mundo, ou triunfantes,
e ao vê-los amorosos e transidos em torno,
o sagrado terror converto em jubilação.

Seu grão de angústia amor já me oferece
na mão esquerda. Enquanto a outra acaricia
os cabelos e a voz e o passo e a arquitetura
e o mistério que além faz os seres preciosos
à visão extasiada.

Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde

;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;; 

Essa linda poesia é do nosso querido Carlos Drummond de Andrade. Dedico aos meus queridos amigos portugueses! 

    Feliz 2007!         

 Carlos Drummond
de Andrade
Claro Enígma
(1951)

     
                  
 

3 Responses to “As flores de plástico não morrem…!!”

  1. Raquel Moniz Says:

    Não morrem… mas também não tem perfume.

  2. elisabetecunha Says:

    Prefiro as naturais como você!!!
    beijo brasileiro! muita paz!

  3. Lino Resende Says:

    Pode ser que as flores de plástico não morram, mas as naturais são melhores, mais belas, têm mais perfume e, sobretudo e o que é mais importante, VIDA.


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